Riograndenser Hunsrückisch: Deitsch vom Gedächtnis zur digitalisierten Dokumentation

Hunsriqueano Riograndense: Língua Materna, Língua do Coração

Da Memória à Salvaguarda Digital

por Paul Beppler

A língua que falamos em casa, o nosso Deitsch, é mais do que um meio de comunicação; é uma língua brasileira, de matriz germânica, sui generis e um verdadeiro monumento vivo de mais de dois séculos de história em solo brasileiro. Para muitos de nós, crescer em regiões como a “Altkolonie”, a “Neikolonie” ou muitas outras interligadas, significa viver imerso em uma oralidade rica, mas que por muito tempo foi ignorada, silenciada, ou mesmo vilificada nos registros oficiais e desestimulada pelas políticas de Estado que deixaram sequelas até os dias de hoje.

Minha trajetória com o Hunsriqueano Riograndense — termo que propus em 2006 ao criar o verbete da língua na Wikipedia — tem sido uma busca constante por transformar essa memória em patrimônio tangível. Morando fora do Brasil, o distanciamento geográfico não enfraqueceu o laço com o idioma; pelo contrário, serviu de motor para uma reconstrução paciente.

A Prova da Escrita: Um Diálogo entre Gerações

Um dos pilares do meu trabalho é a sistematização de uma escrita que seja, ao mesmo tempo, fiel à nossa fonética e funcional para o mundo moderno. A validação definitiva desse sistema não veio de gabinetes acadêmicos, mas da minha própria casa.

Ao longo de anos, mantive uma correspondência intensa com minha mãe, uma falante nativa de base puramente oral. Escrevendo em nossa língua sobre temas que vão da gestão financeira e religião à introdução de neologismos tecnológicos, recebi de volta áudios que confirmavam: ela me entendia plenamente. Essa troca prova que nossa língua não é um dialeto limitado ao passado, mas uma ferramenta capaz de expressar qualquer conceito contemporâneo.

Convergência e Consenso Ortográfico

Minha escrita é fruto de uma evolução orgânica ao longo de décadas. Embora tenha se desenvolvido de forma independente, encontrou um paralelo acadêmico rigoroso nos Fundamentos para uma escrita do Hunsrückisch falado no Brasil (Altenhofen et al., 2007). Vejo essa convergência entre o uso prático e a pesquisa da UFRGS como um “consenso ortográfico” essencial: um sistema que prioriza as raízes históricas germânicas da língua em vez de reestilizações fonéticas artificiais. Minha obra busca ser essa ponte necessária entre a intuição do falante nativo e o rigor da pesquisa linguística formal.

Reconhecimento e Futuro

Hoje, este trabalho de vida está integrado a esforços maiores de preservação:

IPHAN: Minha produção literária e poética faz parte do dossiê para o reconhecimento do Hunsrückisch como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, citada em obras como o Inventário de uma Língua do Brasil (2018).

Documentação Técnica: Atualmente, utilizo ferramentas como o software ELAN para transcrever e traduzir esse tesouro de mensagens e áudios, garantindo que a fala autêntica seja preservada com rigor científico.

Este blog continuará sendo um espaço para compartilhar esses avanços. O objetivo é simples, mas ambicioso: garantir que o Hunsriqueano deixe de ser visto apenas como uma “herança do passado” para ocupar seu lugar de direito como uma língua brasileira de cultura, escrita e futuro.

Alemão Hunsriqueano: Deitsch com Almiro Fritzen (fala + escrita) – Vila Candeia (Maripá, PR) – Vídeo #01

Gon Tooch, meine liewe Leit!
Olá, minha gente! Bom dia!

Segue um vídeo YouTube Short (de cerca de um minuto), gravado em nossa variante regional do idioma alemão, com o saudoso Almiro Fritzen, o “Rote Fritz”, natural de São José do Inhacorá (RS, Brasil). Há anos, porém, está radicado em Vila Candeia, em sua amada cidade de Maripá (PR), também no sul do Brasil.

Obs.: A transcrição apresentada não é tradução, mas um registro escrito fiel (verbatim) do que está sendo falado, respeitando as características da variante regional — não corresponde ao alemão padrão.

Neste primeiro vídeo da série, Almiro nos apresenta um breve registro de sua própria rua, em Vila Candeia — um espaço que ele percorre com a câmera, mostrando as transformações ao longo do tempo e evocando memórias de uma vida inteira. É ali que ele vive há décadas, onde cresceu, viveu experiências marcantes e construiu sua relação afetiva com o lugar.

Trata-se de um registro simples, mas de grande valor: não apenas pelo conteúdo, mas por ser uma afirmação pública de sua língua materna.

NOVIDADE: Esta é a primeira publicação de uma série em que passo a disponibilizar esses registros — com a autorização do Almiro — em uma segunda edição, agora com transcrição/letreiro na própria língua, refletindo exatamente o que está sendo falado.

A proposta é dar também forma escrita a uma língua que, em geral, permanece apenas na oralidade, sobrevivendo com uso escrito ainda bastante limitado, sendo o português normalmente utilizado no registro. Como é bem sabido, línguas sem uma tradição escrita consolidada estão sempre sob risco de desaparecimento mais acelerado.

Por razões técnicas, ainda não foi possível incluir uma faixa com tradução para a língua nacional — mas isso fica como objetivo para as próximas etapas.

Um dos grandes legados culturais de nossos antepassados é justamente esse idioma, que surgiu como resultado natural de suas trajetórias e experiências neste pedaço da Terra Brasilis.

Espero que vocês gostem do vídeo. Curtam a postagem, comentem e compartilhem bastante. Sua participação e apoio são fundamentais — entrem no jogo, não fiquem só observando de longe!