O Brasil nunca foi monolíngue. Segundo o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), mantido pelo IPHAN, falam-se no país mais de 250 línguas: indígenas, de imigração, afro-brasileiras, crioulas e de sinais, além do português e de suas variedades.
Pouca gente sabe disso. Quando se fala em “outras línguas do Brasil”, muitos imaginam um povo indígena isolado no meio da floresta, ou então uma pequena colônia fechada no interior. A realidade é bem diferente.
Minha língua materna é o Hunsriqueano Riograndense (Riograndenser Hunsrückisch, que nós, falantes, comumente chamamos de Deitsch). É uma língua brasileira de matriz germânica, com mais de 200 anos de história. Ela se desenvolveu a partir das diferentes variedades da língua alemã, principalmente das pertencentes ao Westmitteldeutsch (alemão centro-ocidental), especialmente da região do Hunsrück e do Palatinado, trazidas pelos imigrantes que começaram a chegar em São Leopoldo em 1824, quando o Rio Grande do Sul ainda era província e tinha apenas cinco municípios (hoje são 497!).
Não estamos falando de comunidades isoladas. Regiões inteiras foram colonizadas e desenvolvidas com essa língua presente no dia a dia: zonas agrícolas, povoados, cidadezinhas e cidades que hoje são de porte médio ou grande. Estimativas citadas pelo próprio IPHAN falam em cerca de 1,2 milhão de falantes no Brasil e em países vizinhos. Os números variam conforme o critério, e muita gente nem se declara falante, justamente para não ter de enfrentar perguntas ou reações preconceituosas.
Essa imigração não foi obra do acaso. Foi planejada pelo próprio governo imperial, sob D. Pedro I, que mandou recrutar colonos e soldados na Europa de língua alemã para povoar e defender o Sul. Essa história também precisa ser entendida no contexto de um Brasil escravocrata, em que a imigração europeia serviu, em diferentes momentos, a projetos de branqueamento da população. Isso merece ser estudado e discutido, sem confundir os interesses dos governos e das elites da época com a trajetória das famílias que aqui se estabeleceram, e sem esquecer as profundas desigualdades de oportunidades entre os diferentes grupos da população brasileira.
Também vale lembrar que o Brasil não passou a falar português da noite para o dia. Em amplas regiões, a língua do cotidiano colonial foi a Língua Geral, de base tupi. No fim do século XVII, o Padre Antônio Vieira observava que as famílias paulistas falavam em casa a língua dos índios e aprendiam o português na escola. Só no século XVIII o Diretório dos Índios, do Marquês de Pombal, proibiu a Língua Geral e impôs o português por lei. Sua versão amazônica, o nheengatu, é falada até hoje.
“Mas isso não é só um dialeto alemão?” Depende de quem classifica. Do ponto de vista da dialetologia, o Hunsrückisch pertence ao mesmo ramo do luxemburguês, que é hoje língua nacional de um país europeu. A fronteira entre língua e dialeto tem muito mais a ver com história e política do que com linguística. O fato é que, ao longo de dois séculos, nossa língua se desenvolveu aqui, incorporou elementos do português e ganhou características próprias. Não é uma língua estrangeira transplantada. É parte da história do Brasil.
Como outras línguas minoritárias brasileiras, ela passou por repressão. Durante o Estado Novo, sobretudo na Segunda Guerra, falar alemão em público chegou a ser proibido. Muitas famílias deixaram de passar a língua aos filhos, mas ela sobreviveu e é falada até hoje, inclusive por pessoas que, como eu, cresceram com ela como língua materna.
Nas últimas décadas, pesquisadores, universidades, comunidades e instituições públicas vêm fazendo um trabalho importante de documentação. O Hunsrückisch já é patrimônio cultural do Rio Grande do Sul (2012) e de Santa Catarina (2016), e passou por um extenso inventário financiado pelo IPHAN. O reconhecimento federal como Referência Cultural Brasileira, porém, ainda aguarda conclusão. Outra língua de imigração do Sul, o Talian, já recebeu esse reconhecimento em 2014.
Reconhecer uma língua não diminui nenhuma outra. Línguas indígenas, de imigração, afro-brasileiras e de sinais fazem parte, todas, do mesmo patrimônio. Não se trata apenas de preservar palavras ou tradições antigas, mas de reconhecer comunidades que ajudaram a construir o Brasil e continuam fazendo parte dele.
Obs.: Tentei acessar o portal do INDL agora e não consegui. Espero que seja só uma indisponibilidade temporária: https://indl.iphan.gov.br/
Nas imagens abaixo, capturas feitas anteriormente do portal, onde o Hunsrückisch aparece entre as línguas apresentadas ao público.

