{"id":1489,"date":"2014-06-26T06:57:47","date_gmt":"2014-06-26T06:57:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.hunsriqueano.riolingo.com\/blog\/?p=1489"},"modified":"2014-06-26T12:24:08","modified_gmt":"2014-06-26T12:24:08","slug":"plurilinguismo-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.hunsriqueano.riolingo.com\/blog\/plurilinguismo-no-brasil\/","title":{"rendered":"O pluriling\u00fcismo no Brasil <br> die brasilioonische Sprochvielfalt"},"content":{"rendered":"<p>Der Artikel &#8220;Pluriling\u00fcismo no Brasil&#8221; von Gilvan M\u00fcller de Oliveira (Bras\u00edlia, Juni 2008) ist dohie nei-publiziert und wieder \u00fcwich der Internet in Ver\u00f6ffentlichung gebrung, so das mehre Leit wo sich m\u00f6chlischst \u00fcwich Mehrspr\u00e4chichkeit in Brasilie intressiere, es dann leichter finne und lese, und sich dann ooch driwer \u00fcwerlehn, k\u00f6nne. Was mer dohie am mache ist, ist was in Hoch-Technoloschie en &#8216;Spiechel baue&#8217; hesst (en Begriff\/Konzept wo aus der Englisch-Sproch stammt, wo es als &#8220;mirroring&#8221; gekennt ist). Hiedie Web-Seit ist dann nuar en zwooite Platz in der Internetz, von wo der dort uwe erw\u00e4hnte Artikel, weiter nochmo &#8216;reflektiert&#8217; ist &#8230; und n\u00e4mlich, obwohl der Beitrooch schon f\u00fcr das Publikum zur verf\u00fcchung \u00fcwer der Internetz gestellt woard, es woor doch getun dorrich en vielzuviel restriktives sort von Dokument, weil es bis jetzt norre im PDF-Format in der Internetz f\u00fcr se finne ist (en Oort von Datei wo besser dient f\u00fcr gedruckte Versione hearstelle).<\/p>\n<p>O artigo &#8220;Pluriling\u00fcismo no Brasil&#8221; de Gilvan M\u00fcller de Oliveira (Bras\u00edlia, junho de 2008) est\u00e1 sendo re-postado e mais uma vez disponibilizado para o grande p\u00fablico na internet, para que um n\u00famero maior de pessoas que talvez se intessem pelo assunto da pluralidade lingu\u00edstica do pa\u00eds possam mais facilmente encontrar e ler este texto, e refletir sobre o assunto. O que est\u00e1 sendo feito aqui \u00e9 o que em High Technology se chama de &#8216;espelhamento&#8217; (um conceito\/termo que surgiu no mundo angl\u00f3fono, onde se ele chama &#8220;mirroring&#8221;). Esta p\u00e1gina neste site, portanto, somente \u00e9 um ponto na internet onde o acima citado artigo passa a ser &#8216;refletido&#8217; &#8230; quer dizer, muito embora j\u00e1 disponibilizado na internet, isto foi feito em um formato de arquivo deveras restritivo, sim, pois at\u00e9 este momento ele somente se encontra dispon\u00edvel no formato PDF (ideal para produzir vers\u00f5es em papel, para impress\u00e3o).<\/p>\n<p>Plurilingu\u0308ismo no Brasil<br \/>\nRepresentac\u0327a\u0303o da UNESCO no Brasil<br \/>\nGilvan Mu\u0308ller de Oliveira<br \/>\nBrasi\u0301lia, julho 2008<\/p>\n<p>[[P\u00e1gina]] \ufffc\ufffc1<\/p>\n<p>Organizac\u0327a\u0303o das Nac\u0327o\u0303es Unidas para a Educac\u0327a\u0303o, a Cie\u0302ncia e a Cultura (UNESCO) e Instituto de Investigac\u0327a\u0303o e Desenvolvimento em Poli\u0301tica Lingu\u0308i\u0301stica (IPOL) \/ 2008<\/p>\n<p>BR\/2008\/PI\/H\/30<br \/>\nRepresentac\u0327a\u0303o da UNESCO no Brasil<br \/>\nRepresentante<br \/>\nVincent Defourny<br \/>\nCoordenadora de Cultura<br \/>\nJurema Machado<br \/>\nCoordenador Editorial<br \/>\nCe\u0301lio da Cunha<\/p>\n<p>Os autores sa\u0303o responsa\u0301veis pela escolha e apresentac\u0327a\u0303o dos fatos contidos neste livro, bem como pelas opinio\u0303es nele expressas, que na\u0303o sa\u0303o necessariamente as da UNESCO, nem comprometem a Organizac\u0327a\u0303o. As indicac\u0327o\u0303es de nomes e a apresentac\u0327a\u0303o do material ao longo deste livro na\u0303o implicam a manifestac\u0327a\u0303o de qualquer opinia\u0303o por parte da UNESCO a respeito da condic\u0327a\u0303o juri\u0301dica de qualquer pai\u0301s, territo\u0301rio, cidade, regia\u0303o ou de suas autoridades, nem tampouco a delimitac\u0327a\u0303o de suas fronteiras ou limites.<\/p>\n<p>[[P\u00e1gina]] 2<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/unesdoc.unesco.org\/images\/0016\/001611\/161167por.pdf\">Plurilingu\u0308ismo no Brasil<br \/>\nGilvan Mu\u0308ller de Oliveira<\/a>1<\/p>\n<p>A concepc\u0327a\u0303o que se tem do pai\u0301s e\u0301 a de que aqui se fala uma u\u0301nica li\u0301ngua, a li\u0301ngua portuguesa. Ser brasileiro e falar o portugue\u0302s (do Brasil) sa\u0303o, nessa concepc\u0327a\u0303o, sino\u0302nimos. Trata-se de preconceito, de desconhecimento da realidade ou antes de um projeto poli\u0301tico &#8211; intencional, portanto &#8211; de construir um pai\u0301s monoli\u0301ngu\u0308e?<\/p>\n<p>Em algum ni\u0301vel todos esses fatos andam juntos. Na\u0303o e\u0301 por casualidade que se conhecem algumas coisas e se desconhecem outras: conhecimento e desconhecimento sa\u0303o produzidos ativamente, a partir de o\u0301pticas ideolo\u0301gicas determinadas, construi\u0301das historicamente. No nosso caso, produziu-se o \u201cconhecimento\u201d de que no Brasil se fala o portugue\u0302s, e o \u201c\u2018desconhecimento\u201d\u2019 de que muitas outras li\u0301nguas foram e sa\u0303o igualmente faladas. O fato de que as pessoas aceitem, sem discutir, como se fosse um \u2018fato natural\u2019, que o \u2018portugue\u0302s e\u0301 a li\u0301ngua do Brasil\u2019 foi e e\u0301 fundamental, para obter consenso das maiorias para as poli\u0301ticas de repressa\u0303o a\u0300s outras li\u0301nguas, hoje minorita\u0301rias.<\/p>\n<p>Para compreendermos a questa\u0303o e\u0301 preciso trazer alguns dados: no Brasil de hoje sa\u0303o falados por volta de 210 idiomas. As nac\u0327o\u0303es indi\u0301genas do pai\u0301s falam cerca de 170 li\u0301nguas (chamadas de auto\u0301ctones), as comunidades de descendentes de imigrantes outras 30 li\u0301nguas (chamadas de li\u0301nguas alo\u0301ctones), e as comunidades surdas do Brasil ainda duas li\u0301nguas, a Li\u0301ngua Brasileira de Sinais &#8211; Libras &#8211; e a li\u0301ngua de sinais Urubu-Kaapo\u0301r. Somos, portanto, um pai\u0301s de muitas li\u0301nguas &#8211; plurili\u0301ngu\u0308e &#8211; como a maioria dos pai\u0301ses do mundo. Em 94% dos pai\u0301ses do mundo sa\u0303o faladas mais de uma li\u0301ngua.<\/p>\n<p>Se olharmos para nosso passado, veremos que fomos, durante a maior parte da nossa histo\u0301ria, ainda muito mais do que hoje, um territo\u0301rio plurili\u0301ngu\u0308e: quando aqui aportaram os portugueses, ha\u0301 500 anos, falavam-se no pai\u0301s, segundo estimativas de Rodrigues (1993: 23), cerca de 1.078 li\u0301nguas indi\u0301genas, situac\u0327a\u0303o de plurilingu\u0308ismo semelhante a a\u0300 que ocorre hoje nas Filipinas (com 160 li\u0301nguas), no Me\u0301xico (com 241), na I\u0301ndia (com 391) ou, ainda, na Indone\u0301sia (com 663 li\u0301nguas).<\/p>\n<p>O Estado Portugue\u0302s e, depois da independe\u0302ncia, o Estado Brasileiro, tiveram por poli\u0301tica, durante quase toda a histo\u0301ria, impor o portugue\u0302s como a u\u0301nica li\u0301ngua legi\u0301tima, considerando-a \u201ccompanheira do Impe\u0301rio&#8221; (Ferna\u0303o de Oliveira, na primeira grama\u0301tica da li\u0301ngua portuguesa, em 15362). A poli\u0301tica lingu\u0308i\u0301stica do estado sempre foi a de<\/p>\n<p>[[Notas:]]<br \/>\n1 Lingu\u0308ista da Universidade Federal de Santa Catarina (NEP\/UFSC) e pesquisador-associado do Instituto de Investigac\u0327a\u0303o e Desenvolvimento em Poli\u0301tica Lingu\u0308i\u0301stica (IPOL). E-mail: <gimioliz @gmail.com>.<br \/>\n2 Outros grama\u0301ticos da e\u0301poca afirmaram essa mesma relac\u0327a\u0303o entre a li\u0301ngua e a dominac\u0327a\u0303o, como Antonio de Nebrija, o primeiro grama\u0301tico da li\u0301ngua castalhana: \u201ca li\u0301ngua sempre acompanhou a dominac\u0327a\u0303o e a seguiu, de tal modo que juntas comec\u0327aram, juntas cresceram, juntas floresceram e, afinal, sua queda foi comum\u201d (NEBRIJA, 1492, Introduc\u0327a\u0303o, citado por GNERRE, 1987, p. 10).<br \/>\n\ufffc<br \/>\n[[P\u00e1gina]] 3<\/p>\n<p>reduzir o nu\u0301mero de li\u0301nguas, num processo de glotoci\u0301dio (assassinato de li\u0301nguas) atrave\u0301s de deslocamento lingu\u0308i\u0301stico, isto e\u0301, de sua substituic\u0327a\u0303o pela li\u0301ngua portuguesa3. A histo\u0301ria lingu\u0308i\u0301stica do Brasil poderia ser contada pela sequ\u0308e\u0302ncia de poli\u0301ticas lingu\u0308i\u0301sticas homogeinizadoras e repressivas e pelos resultados que alcanc\u0327aram: somente na primeira metade deste se\u0301culo, segundo Darcy Ribeiro, 67 li\u0301nguas indi\u0301genas desapareceram no Brasil \u2013- mais de uma por ano, portanto (RODRIGUES, 1993, p. 23). Das 1.078 li\u0301nguas faladas no ano de 1500 ficamos com cerca de 170 no ano 2000, (somente 15% do total) e va\u0301rias destas 170 encontram-se ja\u0301 moribundas, faladas por populac\u0327o\u0303es diminutas e com poucas chances de resistir ao avanc\u0327o da li\u0301ngua dominante.<\/p>\n<p>Essa ac\u0327a\u0303o do estado pode ser observada, por exemplo, no Direto\u0301rio dos Indios4, de 1758, documento com o qual o Marque\u0302s de Pombal pretendeu legislar sobre a vida dos i\u0301ndios \u2013- primeiro so\u0301 da Amazo\u0302nia, depois de todo o Brasil \u2013- no peri\u0301odo subsequ\u0308ente a\u0300 expulsa\u0303o dos Jesui\u0301tas. A intenc\u0327a\u0303o expressa, de \u201c\u2018civilizar\u201d\u2019 os i\u0301ndios, realiza-se atrave\u0301s da imposic\u0327a\u0303o do portugue\u0302s, li\u0301ngua do Pri\u0301ncipe, como mostra este fragmento com a grafia da e\u0301poca:<\/p>\n<blockquote><p>Sempre foi maxima inalteravelmente praticada em todas as Nac\u0327oens, que consquistarao\u0303 novos Dominios, introduzir logo nos Po\u0301vos conquistados o seu proprio idio\u0302ma, por ser indisputavel, que este he hum dos meios mais efficazes para desterrar dos Po\u0301vos rusticos a barbaridade dos seus antigos costumes; e ter mostrado a experiencia, que ao mesmo passo, que se intoduz nelles o uso da Lingua do Principe, que os conquistou, se lhes radi\u0302ca tambem o affecto, a venerac\u0327ao\u0303, e a obediencia ao mesmo Principe. (&#8230;) sera\u0301 hum dos principa\u0301es cuidados dos Directores, estabelecer nas suas respectivas Povoac\u0327oens o uso da Lingua Portugueza, nao\u0303 consentindo de modo algum, que os Meninos, e Meninas, que pertencerem a\u0301s Esco\u0301las, e todos aquelles Indios, que forem capazes de instrucc\u0327ao\u0303 nesta materia, usem da Lingua propria das suas Nac\u0327oens, ou da chamada geral; mas unicamente da Portugueza, na forma, que Sua Magestade tem reco\u0303mendado em repetidas ordens, que ate\u0301 agora se nao\u0303 observa\u0301rao\u0303 com total ruina Espiritual, e Temporal do Estado (DIRECTORIO, p. 3-4, cap. 6, grifo meu).<\/p><\/blockquote>\n<p>Naquele momento histo\u0301rico, o documento de Pombal volta-se sobretudo contra a li\u0301ngua geral, o tupi da costa do Brasil transformado em li\u0301ngua veicular de i\u0301ndios, brancos e negros em vastas porc\u0327o\u0303es do territo\u0301rio, especialmente na Amazo\u0302nia, onde tambe\u0301m foi e e\u0301 chamada de nheengatu. O documento marca o ini\u0301cio do ocaso desta importante li\u0301ngua veicular, ocaso que vai se acelerar com a chacina de cerca de 40 mil pessoas falantes de nheengatu, i\u0301ndios e negros que pegaram em armas contra a dominac\u0327a\u0303o \u2018branca\u2019 na revoluc\u0327a\u0303o denominada Cabanagem, entre 1834 e 1841(BESSA FREIRE, 1983, p. 65). O processo vai se consumar com o desaparecimento do nheengatu em grande parte da Amazo\u0302nia &#8211; mas na\u0303o em toda &#8211; fato causado pela chegada de 300 a 500 mil nordestinos, falantes monoli\u0301ngu\u0308es de portugue\u0302s, entre 1870, quando comec\u0327a o ciclo da borracha e 1918, final da Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Hoje, apesar desse processo de deslocamento lingu\u0308i\u0301stico que o substituiu pelo portugue\u0302s nas calhas da maioria dos grandes rios, o nheengatu resiste \u201centre a cidade de Manaus e as malocas do Alto Rio Negro, numa a\u0301rea aproximada de 300 mil.000 km2 (&#8230;) o nheengatu e\u0301 o instrumento de comunicac\u0327a\u0303o usual da populac\u0327a\u0303o que ai\u0301 reside e a<\/p>\n<p>[[Notas:]]<br \/>\n3 Ou mesmo pela eliminac\u0327a\u0303o pura e simples das populac\u0327o\u0303es falantes destas li\u0301nguas.<br \/>\n4 Nome abreviado do \u201c\u2018Directorio que se deve observar nas Povoac\u0327o\u0303es dos I\u0301ndios do Para\u0301, e Maranha\u0303o em quanto Sua Magestade nao\u0303 mandar o contrario\u201d\u2019, publicado em edic\u0327a\u0303o fac-similar por Almeida (1997).<br \/>\n\ufffc<br \/>\n[[P\u00e1gina]] 4<\/p>\n<p>li\u0301ngua de come\u0301rcio\u201d(BESSA FREIRE, 1983, p. 73). Isso e\u0301 demonstrado, para tomar um exemplo, nesta propaganda poli\u0301tica de um candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) a deputado estadual na eleic\u0327a\u0303o de 1998:<\/p>\n<blockquote><p>Alto Rio Negro Miraita\u0301 Ara\u03035<br \/>\nSe\u2019 Muita\u0301,<br \/>\nMbuessara Aloysio Nogueira candidato Deputado Estadual ara\u0303.<br \/>\nAe\u0301 mira katu, ti mira puxi.<br \/>\nAe\u0301 yane\u2019 anama.<br \/>\nDeputado Estadual yawe\u0301, Mbuessara Aloysio Nogueira ussu yane\u2019 maramunhangara kirimbawa kuri. Ae\u0301 ussu Alto Rio Negro miraita\u0301 nheenga kuri Assemble\u0301ia Legislativa upe\u0301.<br \/>\nIxe\u0301 ayumana penhe\u0301, se\u2019 anamaita\u0301. Mbuessara Auxiliomar Silva Ugarte sui\u0301<\/p><\/blockquote>\n<p>Na\u0303o devemos imaginar, entretanto, que leis como o Direto\u0301rio tenham, por si so\u0301, mudado o perfil lingu\u0308i\u0301stico do pai\u0301s, ou que tenham sido \u2018obedecidas\u2019 tranqu\u0308ilamente pela populac\u0327a\u0303o. O historiador Jose\u0301 Hono\u0301rio Rodrigues chama nossa atenc\u0327a\u0303o para a resiste\u0302ncia que os diversos grupos lingu\u0308i\u0301sticos do pai\u0301s opuseram contra as poli\u0301ticas de homogeneizac\u0327a\u0303o e glotoci\u0301dio, numa verdadeira guerra de li\u0301nguas6:<\/p>\n<blockquote><p>Numa sociedade dividida em castas, em rac\u0327as, classes, mesmo quando e\u0301 evidente o processo de unificac\u0327a\u0303o da li\u0301ngua, especialmente num continente como o Brasil, onde durante tre\u0302s se\u0301culos combateram va\u0301rias li\u0301nguas indi\u0301genas e negras contra uma branca, na\u0303o havia nem paz cultural, nem paz lingu\u0308i\u0301stica. Havia, sim, um permanente estado de guerra. (&#8230;) O processo cultural que impo\u0302s uma li\u0301ngua vitoriosa sobre as outras na\u0303o foi assim ta\u0303o paci\u0301fico, nem ta\u0303o fa\u0301cil. Custou esforc\u0327os inauditos, custou sangue de rebelados, custou suici\u0301dios, custou vidas (RODRIGUES, 1985, p. 42)<\/p><\/blockquote>\n<p>Na\u0303o so\u0301 os i\u0301ndios foram vi\u0301timas da poli\u0301tica lingu\u0308i\u0301stica dos estados lusitano e brasileiro: tambe\u0301m os imigrantes &#8211; chegados principalmente depois de 1850 &#8211; e seus descendentes passaram por violenta repressa\u0303o lingu\u0308i\u0301stica e cultural. O Estado Novo (1937-1945), regime ditatorial instaurado por Getu\u0301lio Vargas, marca o ponto alto da repressa\u0303o a\u0300s li\u0301nguas alo\u0301ctones, atrave\u0301s do processo que ficou conhecido como<\/p>\n<p>[[Notas:]]<br \/>\n5 \u201cAos povos do Alto Rio Negro. Meus Irma\u0303os: O Professor Aloysio Nogueira e\u0301 candidato a deputado estadual. Ele e\u0301 gente boa. Ele e\u0301 nosso amigo (parente). Como deputado estadual, o Professor Aloysio Nogueira vai ser o nosso valente guerreiro. Ele vai ser a voz dos povos do Alto Rio Negro na Assemble\u0301ia Legislativa. Eu vos abrac\u0327o, meus parentes. Professor Auxiliomar Silva Ugarte\u201d. (O texto e a traduc\u0327a\u0303o me foram gentilmente cedidos pelo pro\u0301prio Aloysio Nogueira, a quem agradec\u0327o, em Sa\u0303o Gabriel da Cachoeira (AM).<br \/>\n6 O conceito \u201c\u2018guerra de li\u0301nguas\u201d\u2019 nos possibilita entender que as li\u0301nguas (isto e\u0301, as diversas comunidades lingu\u0308i\u0301sticas) na\u0303o convivem pacificamente, mas se valem das diferenc\u0327as lingu\u0308i\u0301sticas nas suas lutas identita\u0301rias (CALVET, 1999).<br \/>\n\ufffc\ufffc<br \/>\n[[P\u00e1gina]] 5<\/p>\n<p>\u201cnacionalizac\u0327a\u0303o do ensino\u201d e que pretendeu selar o destino das li\u0301nguas de imigrac\u0327a\u0303o no Brasil.<\/p>\n<p>Foi o caso, especialmente, do alema\u0303o e do italiano na regia\u0303o colonial de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Em regio\u0303es destes dois estados nas quais a estrutura minifundia\u0301ria e a colonizac\u0327a\u0303o homoge\u0302nea garantiram condic\u0327o\u0303es adequadas para a reproduc\u0327a\u0303o das li\u0301nguas, a repressa\u0303o lingu\u0308i\u0301stica, atrave\u0301s do conceito juri\u0301dico de \u201ccrime idioma\u0301tico\u201d, inventado pelo Estado Novo, atingiu sua maior dimensa\u0303o.<\/p>\n<p>Durante o Estado Novo, mas sobretudo entre 1941 e 1945, o governo ocupou as escolas comunita\u0301rias7 e as desapropriou, fechou gra\u0301ficas de jornais em alema\u0303o e italiano, perseguiu, prendeu e torturou pessoas simplesmente por falarem suas li\u0301nguas maternas em pu\u0301blico ou mesmo privadamente, dentro de suas casas. Instaurou-se uma atmosfera de terror e vergonha que inviabilizou em grande parte a reproduc\u0327a\u0303o dessas li\u0301nguas, que, pelo nu\u0301mero de falantes, eram bastante mais importantes que as li\u0301nguas indi\u0301genas na mesma e\u0301poca: 644.458 pessoas, em sua maioria absoluta cidada\u0303os brasileiros, nascidos aqui, falavam alema\u0303o cotidianamente no lar, numa populac\u0327a\u0303o nacional total estimada em 50 milho\u0303es de habitantes, e 458.054 falavam italiano, dados do censo do IBGE de 19408 (MORTARA, 1950). Essas li\u0301nguas perderam sua forma escrita e seu lugar nas cidades, passando seus falantes a usa\u0301-las apenas oralmente e cada vez mais na zona rural, em a\u0302mbitos comunicacionais cada vez mais restritos.<\/p>\n<p>O estado de Santa Catarina, na gesta\u0303o do governador e depois interventor Nereu Ramos, montou campos de concentrac\u0327a\u0303o, chamados eufemisticamente de \u201ca\u0301reas de confinamento\u201d, para descendentes de alema\u0303es que insistissem em falar sua li\u0301ngua, entre outras razo\u0303es (DALL\u2019ALBA, 1986). Um destes campos funcionou dentro do que e\u0301 hoje o campus da Universidade Federal de Santa Catarina, mais especificamente a Prefeitura Universita\u0301ria. A lista com os nomes dos prisioneiros confinados nesse campo foi publicada por Perazzo (1999, p. 239-44)<\/p>\n<p>A partir do recrudescimento do processo, em 1942, as priso\u0303es aumentaram, passando, no munici\u0301pio de Blumenau, por exemplo, de 282 priso\u0303es em 1941, em sua maioria por ocorre\u0302ncias comuns (como embriaguez ou briga em bailes), para 861 no ano seguinte, das quais 271, isto e\u0301, 31,5%, pela u\u0301nica raza\u0303o de se ter falado uma \u201cli\u0301ngua estrangeira\u201d.<\/p>\n<p>Isto significou a prisa\u0303o de 1,5% de toda a populac\u0327a\u0303o do munici\u0301pio no decorrer daquele ano e levou ao silenciamento da populac\u0327a\u0303o. No mesmo ano o Exe\u0301rcito Brasileiro, mais especificamente o 32o Batalha\u0303o de Cac\u0327adores, composto sobretudo de soldados transferidos do Nordeste, deslocados para Blumenau para \u201censinar aos catarinenses a serem brasileiros\u201d, carimbou toda a corresponde\u0302ncia para o Vale do Itajai\u0301 com a frase do ex-governador e ex-ministro das relac\u0327o\u0303es exteriores, Lauro Mu\u0308ller:<\/p>\n<p>[[Notas:]]<br \/>\n7 A partir do ano de 1932 se iniciam uma se\u0301rie de medidas contra o uso da li\u0301ngua alema\u0303 nas escolas teuto- brasileiras. Esta se explica, de um lado, como uma resposta aos reclamos de poli\u0301ticos e intelectuais nacionalistas, que se filiariam, em 1937, ao governo estado-novista, e, de outro, a\u0300s recomendac\u0327o\u0303es de poli\u0301ticos liberais, que enxergavam na instruc\u0327a\u0303o e no uso de um u\u0301nico idioma em todo o pai\u0301s, uma condic\u0327a\u0303o sine qua non para o exerci\u0301cio da cidadania (BREPOHL DE MAGALHA\u0303ES, 1998, p. 48).<br \/>\n8 De todos os censos brasileiros, somente os de 1940 e 1950 se interessaram por perguntar qual li\u0301ngua os brasileiros usavam no lar, e se sabiam falar portugue\u0302s.<br \/>\n\ufffc<br \/>\n[[P\u00e1gina]] 6<\/p>\n<p>\u201cQuem nasce no Brasil ou e\u0301 brasileiro ou e\u0301 traidor\u201d (NOGUEIRA, 1947, p. 13). A ac\u0327a\u0303o \u201cnacionalizadora\u201d do Exe\u0301rcito, entretanto, data de muito antes:<\/p>\n<blockquote><p>Amparados numa ri\u0301gida censura a\u0300 imprensa, que previa a prisa\u0303o imediata do responsa\u0301vel pelo jornal que publicasse qualquer restric\u0327a\u0303o a\u0300 campanha [de nacionalizac\u0327a\u0303o], militares passaram a comandar os munici\u0301pios das zonas coloniais, empossando novas diretorias nas escolas e nas sociedades recreativas (como na Gina\u0301stica Jahn, em Canoinhas), alterando a denominac\u0327a\u0303o de conhecidos centros culturais (a sociedade Mu\u0301sico Teatral Frohsinn, em Blumenau, tornou-se Teatro Carlos Gomes), e interferindo nos mais variados aspectos da vida cotidiana. O seu zelo era tal que, em Jaragua\u0301 do Sul, o prefeito nomeado chegou a proibir que la\u0301pides e mausole\u0301us do cemite\u0301rio local contivessem escritos em \u201cli\u0301ngua estrangeira\u201d (medida que seria depois estendida a todo o Estado), na\u0303o aceitando sequer o expediente adotado por um indivi\u0301duo de nome Godofredo Guitherm Lutz, que cobrira as inscric\u0327o\u0303es do jazigo da fami\u0301lia com uma placa de bronze. E, para apoiar ac\u0327o\u0303es como esta, um batalha\u0303o do exe\u0301rcito foi especialmente criado e enviado para Blumenau, onde ficou acampado na antiga Sociedade de Atiradores. O 32. BC chegou num dia de chuva, sendo recepcionado por autoridades, escoteiros e delegac\u0327o\u0303es das principais indu\u0301strias, enquanto dois avio\u0303es militares soltavam confetes com as cores da bandeira brasileira. Marcando sua chegada, os soldados envolveram-se num conflito com civis durante um baile no Sala\u0303o Buerger, e dias depois seu comandante publicava um edital abolindo \u201co uso de qualquer li\u0301ngua estrangeira em atos pu\u0301blicos\u201d (\u2018A Gazeta\u2019, 24 e 25 de maio de 1939) (FALCA\u0303O, 2000, p. 171 e 200).<\/p><\/blockquote>\n<p>A Poli\u0301cia Militar9, em Santa Catarina como em outros estados, prendeu e torturou e obrigou as pessoas a deixar suas casas em determinadas \u201czonas de seguranc\u0327a nacional\u201d. Mais grave que tudo isso: a escola da \u201cnacionalizac\u0327a\u0303o\u201d estimulou as crianc\u0327as a denunciar os pais que falassem alema\u0303o ou italiano em casa, criando sequ\u0308elas psicolo\u0301gicas insupera\u0301veis para esses cidada\u0303os que, em sua grande maioria, eram e se consideravam brasileiros, ainda que falando alema\u0303o.<\/p>\n<p>Um dos fatos mais tra\u0301gicos, entretanto, e\u0301 que encontramos na nossa histo\u0301ria muito poucas vozes que se opuseram ao esmagador processo de homogeinizac\u0327a\u0303o, mesmo entre os intelectuais brasileiros. \u201cCausa perplexidade\u201d, afirmam Simon Schwartzman e outros \u201co fato de nunca ter havido, por parte das diversas correntes poli\u0301ticas de alguma significac\u0327a\u0303o na histo\u0301ria brasileira, quem defendesse para o pai\u0301s a constituic\u0327a\u0303o de uma sociedade culturalmente pluralista\u201d (SCHWARTZMAN et al., 1984, p. 72).<\/p>\n<p>Para a lingu\u0308i\u0301stica brasileira, da forma como ela esta\u0301 estruturada nas nossas universidades hoje, o estudo da diversidade lingu\u0308i\u0301stica, isto e\u0301, do plurilingu\u0308ismo, tem um lugar apenas modesto nos esforc\u0327os de pesquisa. Quando se fala em diversidade lingu\u0308i\u0301stica muitas vezes se pensa na diversidade interna a\u0300 pro\u0301pria li\u0301ngua portuguesa, o que decorre, entre outras razo\u0303es, do predomi\u0301nio, no pai\u0301s, de uma sociolingu\u0308i\u0301stica de cunho laboviano que poderi\u0301amos chamar de \u201c\u2018sociolingu\u0308i\u0301stica do monolingu\u0308ismo\u201d\u2019. Mas este interesse e\u0301 crescente, e pode ajudar as diversas comunidades lingu\u0308i\u0301sticas do Brasil a manterem e desenvolverem suas li\u0301nguas.<\/p>\n<p>[Notas:]<br \/>\n9 Chamada, no Rio Grande do Sul, de Brigada Militar. E\u0301 interessante que Fiori, que ha\u0301 muitos anos pesquisa o processo de nacionalizac\u0327a\u0303o do ensino, ao procurar a documentac\u0327a\u0303o da poli\u0301cia (Dops) referente a Santa Catarina no peri\u0301odo estadonovista nos arquivos de Curitiba, tenha descoberto que ela foi suprimida, e que \u201cnada consta\u201d sobre os anos da repressa\u0303o lingu\u0308i\u0301stica (comunicac\u0327a\u0303o pessoal).<\/p>\n<p>[[P\u00e1gina]] \ufffc7<\/p>\n<p>Menor ainda foi, tradicionalmente, a preocupac\u0327a\u0303o da lingu\u0308i\u0301stica brasileira de contribuir para garantir, a\u0300s populac\u0327o\u0303es que na\u0303o falam portugue\u0302s, seus direitos lingu\u0308i\u0301sticos10, atrave\u0301s, por exemplo, de intervenc\u0327o\u0303es poli\u0301ticas nos o\u0301rga\u0303os responsa\u0301veis ou na mi\u0301dia. Nesse sentido, na\u0303o temos para o Brasil um quadro muito diferente do que o que Dora Pellicer (1993, p. 36-7) afirma a respeito da lingu\u0308i\u0301stica mexicana em um texto intitulado \u201cFoi enta\u0303o que as li\u0301nguas indi\u0301genas passaram das ma\u0303os dos missiona\u0301rios para as ma\u0303os dos eruditos\u201d:<\/p>\n<blockquote><p>No obstante, la labor de los especialistas mexicanos en el mundo acade\u0301mico no tuvo efecto alguno en la legitimacio\u0301n del uso de estos idiomas [indi\u0301genas] en el contexto de la nacio\u0301n independiente. Pueden argumentarse varias razones de que ello ocurriera asi\u0301. Pero una determinante principal es que aparentemente no hubo, por parte de este gremio, tan interesado en descripciones, comparaciones y estudios dialectales, el proposito de lograr, mediante sus conocimientos acumulados, la reivindicacio\u0301n del uso de estas lenguas. Para esa recie\u0301n constituida intelectualidad mexicana &#8211; cuyos miembros, poseedores de una profusa erudicio\u0301n , se manteni\u0301an al di\u0301a de la moderna filologi\u0301a &#8211; los idiomas nativos constituyeron un apasionante objeto de estudio, pero nada ma\u0301s. En el terreno ideolo\u0301gico todos ellos compartieron, sin someterlo a discusio\u0301n profunda, el ideal nacional de una lengua comu\u0301n [&#8230;]11.<\/p><\/blockquote>\n<p>A Histo\u0301ria nos mostra que poderi\u0301amos ter sido um pai\u0301s ainda muito mais plurili\u0301ngu\u0308e, na\u0303o fossem as repetidas investidas do Estado contra a diversidade cultural e lingu\u0308i\u0301stica. Essa mesma Histo\u0301ria nos mostra, entretanto, que na\u0303o fomos apenas um pai\u0301s multicultural e plurili\u0301ngu\u0308e: somos um pai\u0301s pluricultural e multili\u0301ngu\u0308e, na\u0303o so\u0301 pela atual diversidade de li\u0301nguas faladas no territo\u0301rio, mas ainda pela grande diversidade interna da li\u0301ngua portuguesa aqui falada, obscurecida por outro preconceito: o de que o portugue\u0302s e\u0301 uma li\u0301ngua sem dialetos.<\/p>\n<p>Finalmente, ainda, somos plurili\u0301ngu\u0308es porque estamos presenciando o aparecimento de \u2018novos bilingu\u0308ismos\u2019, desencadeados pelos processos de formac\u0327a\u0303o de blocos regionais de pai\u0301ses, no nosso caso o Mercosul, que acompanha outras iniciativas como a Unia\u0303o Europe\u0301ia e o Tlcan (Nafta). Esses processos desencadeiam novos movimentos migrato\u0301rios, novos fatos demolingu\u0308i\u0301sticos e novas configurac\u0327o\u0303es para o chamado \u201cbilinguismo por opc\u0327a\u0303o\u201d, isto e\u0301, novas orientac\u0327o\u0303es para o aprendizado de li\u0301nguas estrangeiras. E\u0301 de se esperar que ocasionem ainda novos tipos de deslocamentos lingu\u0308i\u0301sticos.<\/p>\n<p>Da mesma forma que as comunidades lingu\u0308i\u0301sticas resistiram aos processos de homogeinizac\u0327a\u0303o na e\u0301poca da Colo\u0302nia, resiste\u0302ncia continua sendo oposta, seja pelos movimentos indi\u0301genas organizados, seja por outros grupos, falantes das li\u0301nguas de<br \/>\n10 Vide a Declarac\u0327a\u0303o Universal dos Direitos Lingu\u0308i\u0301sticos, promulgada em julho de 1996, e publicada no Brasil pela Editora Mercado das Letras e pelo Instituto de Investigac\u0327a\u0303o e Desenvolvimento em Poli\u0301tica Lingu\u0308i\u0301stica.<\/p>\n<p>11 [&#8230;] Contudo, o trabalho dos especialistas mexicanos no mundo acade\u0302mico na\u0303o teve efeito algum na legitimac\u0327a\u0303o do uso destes idiomas [indi\u0301genas] no contexto da nac\u0327a\u0303o independente. Podem ser apontadas va\u0301rias razo\u0303es para que isso tenha ocorrido dessa forma. A principal, todavia, e\u0301 que aparentemente na\u0303o houve, por parte deste grupo, ta\u0303o interessado em descric\u0327o\u0303es, comparac\u0327o\u0303es e estudos dialetais, o propo\u0301sito de apoiar, mediante seus conhecimentos acumulados, a reivindicac\u0327a\u0303o do uso destas li\u0301nguas. Para essa intelectualidade mexicana rece\u0301m-constitui\u0301da \u2013 cujos membros, possuidores de uma profusa erudic\u0327a\u0303o, se mantinham a par da moderna filologia \u2013 os idiomas nativos constitui\u0301iram um apaixonante objeto de estudo, mas nada mais. No terreno ideolo\u0301gico todos eles compartilharam, sem submeter a uma discussa\u0303o aprofundada, o ideal nacional de uma li\u0301ngua comum [&#8230;] (PELLICER, 1993, p. 36-7).<\/p>\n<p>[[P\u00e1gina]] \ufffc8<\/p>\n<p>imigrac\u0327a\u0303o, de li\u0301nguas de sinais ou de variedades discriminadas do portugue\u0302s. Prova disso e\u0301 que a Constituic\u0327a\u0303o de 1988 reconhece aos i\u0301ndios o direito a\u0300s suas li\u0301nguas, pelo menos no aparato escolar, em dois artigos (210 e 231), fato que foi regulamentado pela nova Lei de Diretrizes e Bases da Educac\u0327a\u0303o Nacional, de 1996, tambe\u0301m em dois artigos (78 e 79). Esse e\u0301 um fato muito novo na histo\u0301ria das legislac\u0327o\u0303es brasileiras, ta\u0303o ciosas em \u201cintegrar o i\u0301ndio\u201d, isto e\u0301, fazer com que ele deixasse de ser o que era, para se transformar em outra coisa: ma\u0303o-de-obra nas grandes propriedades ou nas periferias das grandes cidades. Diga-se de passagem que esse direitos foram ancorados na Constituic\u0327a\u0303o por ativa participac\u0327a\u0303o do movimento indi\u0301gena no processo da constituinte.<\/p>\n<p>Conceber uma identidade entre a \u2018li\u0301ngua portuguesa\u2019 e a \u2018nac\u0327a\u0303o brasileira\u2019 sempre foi uma forma de excluir importantes grupos e\u0301tnicos e lingu\u0308i\u0301sticos da nacionalidade; ou de querer reduzir estes grupos, no mais das vezes a\u0300 forc\u0327a, ao formato \u2018luso-brasileiro\u2019. Muito mais interessante seria redefinir o conceito de nacionalidade, tornando-o plural e aberto a\u0300 diversidade: seria mais democra\u0301tico e culturalmente mais enriquecedor, menos violento e discriciona\u0301rio, e permitiria que consegui\u0301ssemos nos relacionar de uma forma mais honesta com a nossa pro\u0301pria histo\u0301ria: nem tentando camuflar e maquilar o passado, escondendo os horrores das guerras, dos massacres e da escravida\u0303o que nos constitui\u0301ram, nem vendo a histo\u0301ria apenas como uma sequ\u0308e\u0302ncia de denu\u0301ncias a serem feitas.<\/p>\n<p>Darcy Loss Luzzato, por exemplo, e\u0301 um autor que tem se dedicado a escrever na sua li\u0301ngua materna, o talian (ou ve\u0302neto rio-grandense) \u2013 amplamente falado nas regio\u0303es coloniais italianas do Rio Grande do Sul e, em menor escala, de Santa Catarina \u2013 e a lutar pela sua manutenc\u0327a\u0303o, num quadro juri\u0301dico que na\u0303o da\u0301 a\u0300s li\u0301nguas de imigrac\u0327a\u0303o nem os mesmos e poucos e parcos direitos que se reconhecem aos i\u0301ndios. Ele narra, neste trecho, um sonho que teve, e com o qual manifesta-se a favor do plurilingu\u0308ismo brasileiro:<\/p>\n<blockquote><p>Che bel inso\u0300nio che go buo l\u2019altra sera. Me go insonia\u0300 che in tuto el Sud del Brasile tuti parle\u0301ino almanco due le\u0301ngue: fra de noantri, ogni uno el parleva talian e portoghese; i dissendenti dei tedeschi i se feva intender tanto in tedesco come in brasilian; i polachi i parleva tanto in polaco come in portoghese; i giaponesi i dopereva co la mede\u0301sima fassilita\u0300 el brasilian e el giaponese; vissin a le frontiere col Uruguay e la Argentina, tanto se sentiva che i parleva in brasilian come in spagnolo. E ghen\u2019era de quei che i era franchi in tre o quatro le\u0301ngue! Quando me son desmissia\u0300 ala matina, pensa\u0300ndoghe sora, me go incorto che sto bel inso\u0300nio el podaria esser stato vero: bastaria che gave\u0301ssimo buo Governi invesse de governi. Bastaria che invesse de poli\u0300tico-buro\u0300crati gave\u0301ssimo buo la fortuna de esser governadi par o\u0300mini de vision, stadisti, e no\u0300 gente de vista curta e storta. Ma, noantri, podemo cambiar la sto\u0300ria. Me nono, el diseva che tuto l\u2019e\u0300 scominsiar! Alora, scominsiemo noantri taliani, che semo stati sempre vanguardieri. Dedrio de noantri, dopo verta la strada, i vegnara\u0300 i altri. Son sicuro!12 (TONIAL, 1995, capa).<\/p><\/blockquote>\n<p>________________________________________<br \/>\n12 \u201cQue belo sonho tive noutra noite. Sonhei que em todo o sul do Brasil todos fala\u0301vamos pelo menos duas li\u0301nguas: entre no\u0301s, falava-se talian e portugue\u0302s; os descendentes de alema\u0303es se faziam entender tanto em alema\u0303o como em brasileiro; os poloneses falavam tanto em polone\u0302s quanto em portugue\u0302s; os japoneses operavam com a mesmi\u0301ssima facilidade o brasileiro e o japone\u0302s; perto da fronteira com o Uruguai e a Argentina, tanto se escutava que se se falava em brasileiro como em espanhol. E havia quem fosse fluente em tre\u0302s ou quatro li\u0301nguas! Quando me acordei pela manha\u0303, pensando nisso, me dei conta que este belo sonho poderia ter sido verdadeiro: bastaria que tive\u0301ssemos tido Governos ao inve\u0301s de governos. Bastaria que inve\u0301s de poli\u0301ticos burocratas tive\u0301ssemos tido a fortuna de ser governados por homens de visa\u0303o, estadistas, e na\u0303o gente de vista curta e torta. Mas no\u0301s podemos mudar a histo\u0301ria. Meu avo\u0302 me dizia que tudo e\u0301 comec\u0327ar! Enta\u0303o comecemos no\u0301s talianos, que fomos sempre vanguardistas. Depois de no\u0301s, uma vez aberta a estrada, vira\u0303o os outros. Tenho certeza!<!--more--><\/p>\n<p>[[P\u00e1gina]] \ufffc9<\/p>\n<p>Refere\u0302ncias bibliogra\u0301ficas<\/p>\n<p>ALMEIDA, R. H. de. O Direto\u0301rio dos i\u0301ndios: um projeto de \u201ccivilizac\u0327a\u0303o\u201d no Brasil do se\u0301culo XVIII. Brasi\u0301lia: UnB, 1997. (Com fac-si\u0301mile do Direto\u0301rio dos I\u0301ndios em ape\u0302ndice).<\/p>\n<p>BESSA FREIRE, J. Da \u201cfala boa\u201d ao portugue\u0302s na Amazo\u0302nia brasileira. Ameri\u0301ndia, n. 8, 1983.<\/p>\n<p>BORN, J. Minorite\u0301s germanophones au Bre\u0301sil: effortes de maintien linguistique et enseignement de l\u2019allemand langue e\u0301trange\u0301re au Rio Grande do Sul. In : LABRIE, N. (Ed.). Etudes re\u0301centes en linguistique de contact. Bonn: Du\u0308mler, 1997. p. 13-26.<\/p>\n<p>CALVET, L.-J. La guerre des langues et les politiques linguistiques. 2.ed. Paris: Hachette Litte\u0301ratures, 1999.<br \/>\n_____. Pour une e\u0301cologie des langues du monde. Paris: Plon, 1999.<\/p>\n<p>DALL\u2019ALBA, J. L. Colonos e mineiros na grande Orleans. Orleans: Edic\u0327a\u0303o do Autor e<br \/>\ndo Instituto Sa\u0303o Jose\u0301, 1986.<\/p>\n<p>FIORI, N. A. Rumos do nacionalismo brasileiro nos tempos da Segunda Guerra Mundial: o \u201cnacional\u201d e as minorias e\u0301tnicas \u201cinimigas\u201d. Cadernos de Sociologia do Programa de Po\u0301s-Graduac\u0327a\u0303o em Sociologia\/Sociedade Brasileira de Sociologia. Porto Alegre: Editora da UFRGS, v. 4, n. especial, 1993.<\/p>\n<p>_____. Homogeneidade cultural brasileira: estrate\u0301gias governamentais sob o Estado Novo. Cadernos de Sociologia do Programa de Po\u0301s-Graduac\u0327a\u0303o em Sociologia\/Sociedade Brasileira de Sociologia. Porto Alegre: Editora da UFRGS, n. especial, 1995.<\/p>\n<p>______. A cultura luso-brasileira ameac\u0327ada? Controve\u0301rsias dos tempos da Segunda Guerra Mundial. In: III CONGRESSO LUSO-AFRO-BRASILEIRO DE CIE\u0302NCIAS SOCIAIS, Lisboa, 1996. Dina\u0302micas multiculturais, novas faces, outros olhares; actas das sesso\u0303es tema\u0301ticas, v. 2. Lisboa: [s.n.], 1996. p. 621-29.<\/p>\n<p>GNERRE, M. Linguagem, escrita e poder. 2.ed. Sa\u0303o Paulo: Martins Fontes, 1987.<\/p>\n<p>MORTARA, G. Estudo sobre as li\u0301nguas estrangeiras e abori\u0301gines faladas no Brasil, n. 2. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estati\u0301stica, Estati\u0301stica Cultural, 1950a.<\/p>\n<p>______. Li\u0301nguas estrangeiras e abori\u0301gines faladas no lar, no Estado de Santa Catarina. Revista Brasileira dos Munici\u0301pios, v. 3, n. 11, p. 673- 704, 1950b.<\/p>\n<p>______. Li\u0301nguas faladas no lar pela populac\u0327a\u0303o do Estado do Mato Grosso. Estudos sobre as Li\u0301nguas Estrangeiras e Abori\u0301genes Faladas no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estati\u0301stica, Estati\u0301stica Cultural, n. 2, p. 94-105, 1950c.<\/p>\n<p>[[P\u00e1gina]] 10<\/p>\n<p>MU\u0308LLER DE OLIVEIRA, G.; OLIVEIRA, S. M. de. Formac\u0327a\u0303o de professores indi\u0301genas: um caso de poli\u0301tica lingu\u0308i\u0301stica nas comunidades Kainga\u0301ng. Espac\u0327os da Escola, Ijui\u0301, RS: Editora da UNIJUI\u0301, a. 4, n. 25, jul.\/set. p. 55-64, 1997.<\/p>\n<p>______. Poli\u0301ticas lingu\u0308i\u0301sticas no Brasil Meridional: os censos de 1940 e 1950. In: CONGRESO INTERNACIONAL POLI\u0301TICAS LINGU\u0308I\u0301STICAS PARA AME\u0301RICA, Buenos Aires, 26-29 nov. 1997. Actas&#8230;Buenos Aires: Universidad de Buenos Aires, 1999. p. 405-16.<\/p>\n<p>PELLICER, D. Oralidad y escritura de la literatura indi\u0301gena: una aproximacio\u0301n histo\u0301rica. In: MONTEMAYOR, C. (Coord.). Situacio\u0301n actual y perspectivas de la literatura en lenguas indi\u0301genas. Me\u0301xico: Direccio\u0301n General de Publicaciones del Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, 1993. p. 15-54.<\/p>\n<p>RODRIGUES, J. H. A vito\u0301ria da li\u0301ngua portuguesa no Brasil colonial. In: _____. Histo\u0301ria Viva. Sa\u0303o Paulo: Global Universita\u0301ria, 1985. (Se\u0301rie histo\u0301ria).<\/p>\n<p>RODRIGUES, A. D.\u2019I. Li\u0301nguas indi\u0301genas: 500 anos de descobertas e perdas. Cie\u0302ncia Hoje, v. 16, n. 95, nov. 1993.<\/p>\n<p>SCHWARTZMAN, S. et al. Tempos de Capanema. Rio de Janeiro: Paz e Terra; Sa\u0303o Paulo: Edusp, 1984.<\/p>\n<p>TONIAL, H. Adesso Imparemo. Porto Alegre: Sagra D.C. Luzzatto Editores, 1995.<\/p>\n<p>[[P\u00e1gina]] 11<\/gimioliz> <\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pages\/Riograndenser-Hunsr%C3%BCckisch\/366655020086673\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-797\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.hunsriqueano.riolingo.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/Screen-Shot-2014-01-29-at-12.07.28-AM.png?resize=194%2C223\" alt=\"Screen Shot 2014-01-29 at 12.07.28 AM\" width=\"194\" height=\"223\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Der Artikel &#8220;Pluriling\u00fcismo no Brasil&#8221; von Gilvan M\u00fcller de Oliveira (Bras\u00edlia, Juni 2008) ist dohie nei-publiziert und wieder \u00fcwich der Internet in Ver\u00f6ffentlichung gebrung, so das mehre Leit wo sich m\u00f6chlischst \u00fcwich Mehrspr\u00e4chichkeit in Brasilie intressiere, es dann leichter finne &hellip; <a href=\"https:\/\/www.hunsriqueano.riolingo.com\/blog\/plurilinguismo-no-brasil\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1489","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"aioseo_notices":[],"aioseo_head":"\n\t\t<!-- All in One SEO 5.0.1.1 - aioseo.com -->\n\t<meta name=\"robots\" content=\"max-image-preview:large\" \/>\n\t<meta name=\"author\" content=\"Paul Beppler\"\/>\n\t<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.hunsriqueano.riolingo.com\/blog\/plurilinguismo-no-brasil\/\" \/>\n\t<meta name=\"generator\" content=\"All in One SEO (AIOSEO) 5.0.1.1\" \/>\n\t\t<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n\t\t<meta property=\"og:site_name\" content=\"Riograndenser Hunsr\u00fcckisch | iss die meischt gesprochne reschionoole Variant von der deitsche Sproch in Br\u00e4silje. 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